quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Duas Vezes Não se Faz

DUAS VEZES NÃO SE FAZ

Por Petrônio Souto*


Há lugares que possuem um magnetismo tão forte que prendem o visitante para sempre, desde o primeiro contato. É impossível esquecê-los. São coisas que passam a compor a nossa história pessoal. Seguramente, um desses lugares fantásticos é o Cabo Branco, em João Pessoa, Paraíba.

Num dia de maré baixa, experimente sair a pé da Praça de Iemanjá para contornar o Cabo Branco, indo até a Ponta do Seixas, voltando, em seguida, no mesmo ritmo, sem se preocupar com o relógio e com o cotidiano ordinário da cidade.

Tudo contribui para que o percurso se torne um momento transcendente: o silêncio de claustro, o mantra das ondas, o assovio das lufadas salgadas, o caminho com aparência de tapete luminoso, entre a falésia imponente e o mar calmo, o rumor sutil dos nossos passos sobre a areia. Para completar o encantamento, o céu azul e o Oceano Atlântico, que, no ponto mais oriental das Américas, parece não ter fim.

Quando aqui chegou, vindo de Campina Grande para morar pertinho do Cabo Branco, em 1976, Marcus Vilar certamente ficou fascinado por esse paraíso terrestre, que Deus, num excesso de confiança, entregou à guarda dos paraibanos.

Sem ter se deixado seduzir por aquele ambiente paradisíaco, Vilar jamais teria feito um filme tão belo como DUAS VEZES NÃO SE FAZ, curta-metragem de 12 minutos, produção do Para´iwa e Ponto de Cultura, com financiamento do FMC da Prefeitura de João Pessoa e apoio da UFPB-PRAC-COEX.

Usando trechos selecionados de obras de Vanildo Brito, Hermano José, Luís Augusto Crispim, Ascendino Leite e José Américo, intelectuais que exaltaram o Cabo Branco em prosa e verso, Marcus Vilar, contando com a parceria de Durval Leal Filho, na produção e edição, e com o auxílio luxuoso da narração impecável de Luís Carlos Vasconcelos, nos leva a fazer um passeio poético pelo que ainda resta de um dos mais belos monumentos naturais do planeta.

Em contraponto, “procurando evitar o panfleto”, como ele próprio afirma, o filme nos mostra, em tons dramáticos de um réquiem, a acelerada degradação do Cabo Branco, tanto pela ação natural dos ventos, das correntes marítimas e dos fluxos das marés, como pela intervenção tresloucada do homem. É aí que DUAS VEZES NÃO SE FAZ (título de um poema de Hermano José) se torna um desesperado pedido de socorro em favor do Cabo Branco.

Poema feito de sons e imagens, o filme de Marcus Vilar é também um canto de esperança. As cenas finais, em que a geógrafa Lígia Tavares, guerreira das causas do meio ambiente, conversa com meninos e meninas de uma escola da cidade, têm a força das coisas simples. A presença das crianças no local do desastre é a própria luz no final do túnel, a certeza de que nem tudo está perdido.

DUAS VEZES NÃO SE FAZ conquista o coração do espectador, a partir dos primeiros movimentos. Não tenho dúvidas de que, com a mesma intensidade, tocará a sensibilidade daqueles que podem fazer alguma coisa no sentido da proteção do Cabo Branco.


*Petrônio Souto é jornalista e cinéfilo.

Um comentário:

  1. Marcus Vilar. Meu nome é Gilsa, professora das Lourdinas, escola que você visitou recentemente. Gostaria de ter acesso ao poema do Hermano José que deu título ao teu documentário. Você poderia me cerder o poema? Estou precisando com urgência. Um grande abraço, Gilsa.

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